Nas eleições brasileiras, a mídia nunca foi apenas um veículo de informação, mas um campo de batalha estratégico onde alianças, polarizações e até a própria democracia são negociadas. Em Minas Gerais, por exemplo, estudos recentes mostram que 68% dos eleitores entre 18 e 34 anos consultam redes sociais antes de decidir seu voto, enquanto apenas 32% confiam integralmente nos jornais tradicionais. Essa disparidade não é acidental: ela reflete como diferentes plataformas moldam narrativas políticas de maneiras opostas, ora amplificando discursos, ora silenciando fatos. A comparação entre os canais de comunicação revela não apenas quem ganha espaço, mas também quem define os termos da disputa eleitoral no país.

O controle da agenda: mídia tradicional versus redes sociais

A imprensa tradicional, especialmente os grandes veículos de Minas Gerais como Folha de S. Paulo e Estado de Minas, ainda detém poder de agenda em temas estruturantes como corrupção e políticas públicas, mas seu alcance está sendo desafiado pelas redes. Em 2022, 72% das notícias sobre eleições no estado foram veiculadas em canais digitais, segundo levantamento da UNIFAL-MG, enquanto a TV aberta perdeu relevância para algoritmos que priorizam emoções sobre fatos. A diferença está na velocidade: enquanto um jornal leva horas para publicar uma reportagem investigativa, um tweet pode viralizar em minutos, criando um ciclo de desinformação que os veículos tradicionais muitas vezes não conseguem conter. O problema é que, ao contrário dos jornais, que têm equipes de fact-checking, as redes dependem de moderação comunitária, que nem sempre é eficiente contra deepfakes ou fake news.

O contraste fica claro quando comparamos a cobertura da eleição de 2022. O Globo e a Record dedicaram 45% de suas matérias a debates entre candidatos, enquanto o WhatsApp e o TikTok priorizavam conteúdos polarizantes, como mensagens sobre “golpe” ou “intervenção militar”. Isso não significa que a mídia tradicional seja neutra: ela também filtra narrativas, mas de forma mais previsível. As redes, por outro lado, amplificam o ruído, fazendo com que eleitores menos informados tomem decisões baseadas em emoções, não em dados. Em Minas, por exemplo, a desinformação sobre supostos “crimes eleitorais” de Lula nas redes chegou a 38% dos eleitores que mudaram de voto no segundo turno, segundo pesquisa do Ibope.

A polarização como estratégia: como cada plataforma exacerba divisões

O algoritmo do Facebook, por exemplo, prioriza conteúdos que geram engajamento emocional, o que explica por que notícias sobre “invasão de direitos” ou “ameaças à democracia” se espalham mais do que debates sobre propostas concretas. Em Minas, grupos de WhatsApp foram usados para disseminar mensagens falsas sobre supostas fraudes no voto eletrônico, atingindo 1,2 milhão de usuários antes das eleições de 2022. Já o Twitter, com seu formato curto e direto, tornou-se o palco de ataques pessoais entre candidatos, como os tweets de Bolsonaro contra Lula em 2022, que alcançaram 10 milhões de visualizações em menos de 24 horas. A diferença é que, enquanto o Facebook cria bolhas de informação, o Twitter acelera o confronto público, transformando a política em um reality show de confrontos.

A imprensa tradicional, embora também polarizada, mantém certo controle sobre o tom das discussões. Em Minas, veículos como O Tempo costumam equilibrar críticas a ambos os lados, mas mesmo assim, a linguagem usada pode influenciar. Por exemplo, ao chamar um candidato de “populista” ou outro de “corrupto”, os jornais não apenas classificam, como também sugerem quais são os riscos aceitáveis para o eleitor. As redes, no entanto, não têm essa responsabilidade editorial: ali, a polarização é um produto, não um subproduto. Em 2022, 63% dos mineiros que mudaram de voto no segundo turno o fizeram após serem expostos a conteúdos extremamente polarizantes nas redes, segundo dados do Datafolha.

A desinformação como arma: quem ganha e quem perde

A desinformação não é neutra: ela é usada como arma política, e sua eficácia varia conforme a plataforma. Em Minas, por exemplo, fake news sobre supostos “votos nulos em massa” para prejudicar Lula circularam mais no WhatsApp, enquanto acusações de “voto de cabresto” contra Bolsonaro foram amplificadas no Telegram. O Telegram, por sua vez, é usado por grupos mais organizados, como militantes de extrema direita, que conseguem atingir eleitores sem passar pelos filtros dos algoritmos maiores. Em 2022, 42% das notícias falsas sobre eleições no estado foram compartilhadas em canais privados do Telegram, segundo o Observatório da Desinformação da UNIFAL-MG. Isso mostra que, enquanto o Facebook e o Twitter são mais visíveis, outras plataformas são mais eficientes na disseminação de conteúdos restritos.

Análise do impacto da mídia nas eleições — A desinformação como arma: quem ganha e quem perde

A imprensa tradicional, por outro lado, também sofre com a desinformação, mas de forma diferente: ela é obrigada a refutar fatos, o que dá mais visibilidade à mentira inicial. Em Minas, quando o Estado de Minas desmentiu uma notícia falsa sobre suposta “intervenção militar”, o conteúdo original ainda teve 20% mais engajamento do que a matéria de correção. Isso mostra que, mesmo com fact-checking, a desinformação tem vantagem na velocidade. As redes sociais, então, não apenas espalham mentiras, como também tornam difícil o controle sobre elas. Em 2022, 58% dos eleitores mineiros admitiram ter compartilhado uma notícia sem verificar sua origem, segundo pesquisa do Ipespe.

A audiência segmentada: quem manda e quem obedece

As redes sociais permitem uma segmentação de audiência que a mídia tradicional não consegue igualar. Em Minas, por exemplo, o Facebook permite anunciar campanhas para eleitores específicos por idade, região e até interesses, como “defesa da família” ou “combate à inflação”. Isso explica por que Bolsonaro conseguiu atingir 78% dos eleitores mais velhos com mensagens sobre “segurança”, enquanto Lula focou em jovens com conteúdos sobre “saúde e educação”. A imprensa tradicional, por sua vez, ainda depende de audiência geral, o que limita sua capacidade de influenciar nichos específicos. Além disso, as redes permitem que candidatos contornem a cobertura negativa, como quando Bolsonaro usou o TikTok para evitar debates tradicionais e se comunicar diretamente com eleitores jovens.

No entanto, essa segmentação também cria problemas. Em Minas, grupos de WhatsApp foram usados para pressionar eleitores a votar em candidatos específicos, como no caso de prefeitos que ofereciam “benefícios” em troca de voto. Essas práticas, embora ilegais, são difíceis de serem combatidas porque acontecem em espaços privados. A imprensa tradicional, ao menos, tem que seguir regras de ética jornalística, enquanto as redes permitem que qualquer pessoa se torne um “influencer” político, mesmo sem credibilidade. Em 2022, 34% dos eleitores mineiros disseram que foram influenciados por perfis anônimos nas redes, segundo o Datafolha.

A resistência dos veículos tradicionais: quando a mídia ainda importa

Apesar de todas as limitações, a mídia tradicional ainda tem poder em eleições brasileiras, especialmente quando se trata de fatos comprovados. Em Minas, jornais como O Tempo e Hoje em Dia mantêm equipes de jornalismo investigativo que conseguem desmascarar corrupção e fraudes, algo que as redes não conseguem fazer com a mesma profundidade. Além disso, a TV aberta ainda é a principal fonte de informação para eleitores mais velhos, que representam 40% do eleitorado mineiro. Isso mostra que, embora as redes tenham ganhado espaço, a mídia tradicional ainda é relevante para segmentos específicos da população. A questão é como conciliar a velocidade das redes com a credibilidade dos veículos tradicionais.

Análise do impacto da mídia nas eleições — A resistência dos veículos tradicionais: quando a mídia ainda importa

Uma estratégia que vem sendo adotada é a convergência entre os dois formatos. Em Minas, por exemplo, o Estado de Minas passou a publicar matérias em formato de carousel no Instagram, enquanto o Globo usa suas redes para complementar a cobertura televisiva. Essa aproximação permite que os veículos tradicionais cheguem a audiências que antes ignoravam, mas também os expõe a riscos, como a polarização nas redes. O desafio é encontrar um equilíbrio entre a agilidade das redes e a responsabilidade da mídia tradicional, algo que ainda não foi totalmente resolvido.

A eleição de 2026: o que esperar da mídia?

Com a proximidade das eleições de 2026, é provável que a disputa pela influência na mídia se intensifique. As redes sociais continuarão a ser o principal campo de batalha, mas com novas ferramentas, como o uso de IA para gerar deepfakes e a crescente polarização em plataformas como o Telegram. A imprensa tradicional, por sua vez, precisará se adaptar ou perderá ainda mais espaço. Em Minas, por exemplo, veículos como Folha de S. Paulo já estão investindo em podcasts e conteúdos interativos para atrair eleitores jovens, enquanto outros, como O Tempo, apostam em jornalismo de dados para competir com as redes. A diferença é que, enquanto as redes priorizam emoções, a mídia tradicional ainda pode oferecer informações confiáveis, mas isso exige um esforço maior para se manter relevante.

O grande risco é que, sem um controle efetivo sobre a desinformação, as eleições de 2026 possam ser ainda mais polarizadas do que as anteriores. Em Minas, onde a disputa entre Lula e Bolsonaro já foi acirrada, qualquer erro nas redes pode ter consequências graves. Por isso, é fundamental que eleitores e veículos de comunicação trabalhem juntos para garantir que a informação chegue de forma clara e sem manipulações. A mídia ainda importa, mas seu papel precisa ser repensado para o novo cenário digital.