As eleições de 2026 no Brasil não serão apenas um pleito para definir o próximo presidente ou a composição do Congresso. Elas representarão um momento decisivo para as políticas alimentares do país, um setor que depende diretamente de decisões políticas para garantir segurança nutricional, acesso a alimentos e sustentabilidade na produção. Desde o orçamento destinado ao Programa Nacional de Alimentação Escolar até as regras para agrotóxicos e a regulamentação do comércio internacional de commodities, cada voto terá consequências concretas na mesa dos brasileiros. Com a polarização política ainda acirrada e a pressão de grupos de interesse, como o agronegócio e movimentos sociais, o cenário pós-eleitoral pode redefinir prioridades que afetam desde pequenos agricultores até grandes redes de supermercados.
O papel do Congresso na definição do orçamento para programas sociais
O Congresso Nacional tem poder decisivo sobre o destino dos recursos que financiam políticas alimentares, especialmente por meio das emendas parlamentares. Em 2025, por exemplo, cerca de 30 bilhões de reais foram destinados a emendas individuais e de bancada, muitas delas direcionadas a programas como o Bolsa Família e a compra de alimentos da agricultura familiar. A composição do Legislativo em 2026, portanto, será determinante para manter ou cortar esses investimentos. Partidos alinhados ao agronegócio tendem a priorizar subsídios para grandes produtores, enquanto legendas de esquerda costumam defender mais verbas para a merenda escolar e a reforma agrária. A disputa não é apenas ideológica, mas também regional, já que estados como Mato Grosso e Paraná pressionam por mais recursos para a soja, enquanto o Nordeste exige políticas de combate à fome.
Além disso, a aprovação do orçamento depende de negociações complexas entre Executivo e Legislativo. Em 2023, o governo Lula precisou ceder a parlamentares do Centrão para garantir a liberação de emendas, o que resultou em menos recursos para programas emergenciais de alimentação. Se a próxima legislatura for ainda mais fragmentada, como indicam as pesquisas, a tendência é que as políticas sociais fiquem reféns de acordos políticos, com riscos de descontinuidade. A sociedade civil, por sua vez, terá que pressionar para que as emendas não sejam usadas apenas como moeda de troca, mas como ferramenta efetiva de redução da insegurança alimentar.
A influência do bolsonarismo nas políticas de segurança alimentar
Mesmo sem Jair Bolsonaro na presidência, o bolsonarismo continuará a moldar as políticas alimentares no Brasil, especialmente por meio de sua bancada no Congresso. Durante o governo anterior, houve um desmonte de estruturas como o Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional, além de cortes em programas como o Programa de Aquisição de Alimentos. Em 2026, a força dessa ala política pode se traduzir em propostas como a flexibilização do uso de agrotóxicos, a redução de impostos para alimentos ultraprocessados e a privatização de empresas públicas ligadas à cadeia alimentar, como a Companhia Nacional de Abastecimento. Essas medidas, embora defendidas como “modernizadoras”, tendem a beneficiar grandes indústrias em detrimento de pequenos produtores e consumidores.
A resistência a essas pautas dependerá da capacidade de mobilização de movimentos como o MST e a Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos. Em 2024, por exemplo, a pressão desses grupos conseguiu barrar projetos que facilitavam a liberação de novos defensivos agrícolas. No entanto, se o bolsonarismo mantiver sua influência no próximo Congresso, a tendência é que essas batalhas se tornem ainda mais difíceis. Outro ponto crítico é a relação com o Judiciário, que em 2025 já começou a questionar decisões do Executivo sobre políticas de abastecimento. Uma eventual vitória de candidatos alinhados ao bolsonarismo pode levar a uma judicialização ainda maior das políticas alimentares, com tribunais decidindo sobre temas como a distribuição de cestas básicas e a fiscalização de alimentos.
O impacto das eleições estaduais na distribuição de alimentos
As eleições para governadores e assembleias legislativas estaduais em 2026 terão um impacto direto na execução de políticas alimentares, especialmente em programas descentralizados como o Programa Nacional de Alimentação Escolar. Cada estado tem autonomia para definir como os recursos serão aplicados, o que pode resultar em disparidades regionais gritantes. Em São Paulo, por exemplo, o governo estadual tem investido em parcerias com cooperativas de agricultura familiar para fornecer alimentos orgânicos nas escolas, enquanto em estados como Rondônia, a prioridade tem sido a compra de produtos industrializados. A escolha dos próximos governadores, portanto, definirá se essas políticas serão expandidas ou abandonadas.

Além disso, os estados têm papel fundamental na gestão de estoques reguladores e na distribuição de alimentos em situações de emergência, como secas ou enchentes. Em 2023, o governo do Rio Grande do Sul precisou criar um plano emergencial para distribuir cestas básicas após as enchentes, mas a falta de coordenação com o governo federal gerou atrasos e desperdício. Se os próximos governadores não priorizarem a articulação com o Ministério da Cidadania, situações como essa podem se repetir. Outro ponto crítico é a fiscalização sanitária, que varia muito entre os estados. Enquanto alguns têm estruturas robustas para monitorar a qualidade dos alimentos, outros enfrentam escassez de fiscais, o que aumenta o risco de fraudes e contaminação.
A relação entre o Brasil e o mercado internacional de commodities
As eleições de 2026 também definirão como o Brasil se posicionará no mercado internacional de commodities, um setor que tem impacto direto nos preços dos alimentos no país. Durante o governo Bolsonaro, houve uma aproximação com os Estados Unidos que resultou em acordos comerciais favoráveis à exportação de soja e carne, mas que também aumentaram a dependência do Brasil em relação a poucos mercados. Com a possível eleição de um governo mais alinhado à esquerda, a tendência é que haja uma diversificação de parceiros comerciais, com foco em países da África e da Ásia, o que poderia reduzir a volatilidade dos preços internos. No entanto, essa mudança não será automática e dependerá de negociações complexas.
Outro fator crítico é a pressão por sustentabilidade nas exportações. A União Europeia, por exemplo, tem exigido cada vez mais certificações de que os produtos brasileiros não contribuem para o desmatamento. Se o próximo governo não implementar políticas efetivas de rastreabilidade, o Brasil pode perder acesso a mercados importantes, o que afetaria diretamente a renda de produtores e, consequentemente, os preços dos alimentos. Além disso, a relação com a China, principal compradora de commodities brasileiras, será um ponto de tensão. Qualquer sinal de instabilidade política no Brasil pode levar a uma redução nos investimentos chineses, o que teria impacto imediato na balança comercial e no abastecimento interno.
A participação da juventude no debate sobre políticas alimentares
A juventude brasileira tem se tornado um ator cada vez mais relevante nas eleições, especialmente em temas como segurança alimentar e sustentabilidade. Nas eleições de 2022, cerca de 20 milhões de jovens entre 16 e 24 anos estavam aptos a votar, e pesquisas indicam que esse grupo tende a priorizar pautas como a redução do desperdício de alimentos e o apoio à agricultura familiar. Em 2026, a expectativa é que essa participação aumente, com movimentos como o Greenpeace e a Rede de Jovens pelo Clima mobilizando eleitores para exigir compromissos concretos dos candidatos. A pressão por políticas públicas que garantam alimentos saudáveis e acessíveis pode se tornar um diferencial nas campanhas, especialmente em um cenário de crise econômica.
No entanto, a participação da juventude não se limita ao voto. Muitos jovens têm se engajado em iniciativas locais, como hortas comunitárias e cooperativas de consumo, que buscam alternativas ao modelo tradicional de produção de alimentos. Em cidades como Belo Horizonte e Curitiba, esses projetos já conseguiram influenciar políticas municipais, como a inclusão de alimentos orgânicos na merenda escolar. Se essa tendência se fortalecer, a pressão por mudanças estruturais nas políticas alimentares pode vir não apenas dos partidos, mas também da sociedade organizada. Por outro lado, a falta de representatividade jovem no Congresso e nas assembleias legislativas ainda é um obstáculo, já que poucos parlamentares com menos de 30 anos têm espaço para propor leis que reflitam as demandas desse grupo.
Os riscos de retrocessos na legislação sanitária e ambiental
As eleições de 2026 também podem trazer retrocessos na legislação que regula a produção e a comercialização de alimentos no Brasil. Desde 2019, houve uma série de tentativas de flexibilizar as normas sanitárias, como a redução do número de fiscais da Anvisa e a permissão para que alimentos com agrotóxicos proibidos em outros países sejam vendidos no Brasil. Se candidatos alinhados ao agronegócio ganharem força no Congresso, projetos como o “Pacote do Veneno”, que facilita a liberação de novos defensivos agrícolas, podem ser retomados. Isso teria consequências graves para a saúde pública, já que o Brasil já é o maior consumidor de agrotóxicos do mundo, com mais de 700 mil toneladas aplicadas anualmente.

Além disso, a legislação ambiental também está em risco. A aprovação do novo Código Florestal em 2012 já flexibilizou as regras de proteção às áreas de preservação, e novas tentativas de alterar a lei podem aumentar o desmatamento, especialmente na Amazônia e no Cerrado. Como essas regiões são fundamentais para a produção de alimentos, como a soja e a carne, qualquer mudança nas regras pode afetar não apenas o meio ambiente, mas também a segurança alimentar do país. Outro ponto crítico é a fiscalização, que tem sido enfraquecida nos últimos anos. Em 2024, o Ibama registrou uma queda de 30% no número de autuações por crimes ambientais, o que pode se agravar se o próximo governo não priorizar a área.
A disputa entre modelos de produção: agronegócio vs. agricultura familiar
A eleição de 2026 será um momento decisivo para definir qual modelo de produção de alimentos prevalecerá no Brasil: o agronegócio, focado em commodities para exportação, ou a agricultura familiar, que abastece o mercado interno com alimentos diversificados. Atualmente, o agronegócio responde por cerca de 70% das exportações brasileiras, mas também é responsável por grande parte do desmatamento e da concentração de terras. Já a agricultura familiar, que representa 77% dos estabelecimentos rurais, produz mais de 70% dos alimentos consumidos no país, segundo o IBGE. A disputa entre esses dois modelos se reflete nas políticas públicas, como o Programa de Aquisição de Alimentos, que compra produtos da agricultura familiar para distribuir em escolas e creches.
Se o próximo governo priorizar o agronegócio, a tendência é que haja mais incentivos para a produção de soja, milho e carne, em detrimento de culturas como feijão, arroz e mandioca, que são essenciais para a segurança alimentar. Além disso, a concentração de terras pode se agravar, já que grandes produtores têm mais acesso a crédito e tecnologia. Por outro lado, se a agricultura familiar for priorizada, o Brasil pode avançar em políticas de reforma agrária e apoio a cooperativas, o que teria impacto direto na redução da fome. A escolha entre esses modelos não é apenas técnica, mas política, e dependerá de quem ocupar os principais cargos no Executivo e no Legislativo em 2027.
