As eleições brasileiras sempre foram um palco de debates intensos sobre ética política, onde a linha entre transparência e manipulação muitas vezes se confunde. Desde as cabines de votação dos anos 80 e 90, marcadas por símbolos de cervejas e outras práticas questionáveis, até os recentes impasses judiciais sobre debates presidenciais, a questão ética tem sido um ponto de tensão recorrente. A falta de clareza nas regras e a interferência de instituições como o TSE e o STF não apenas geram insegurança jurídica, mas também minam a confiança dos eleitores em um processo que deveria ser o mais democrático possível. Neste contexto, entender como a ética política interfere nas eleições, e como os candidatos, partidos e instituições podem (ou deixam de) lidar com isso, é fundamental para quem quer acompanhar ou até mesmo influenciar o jogo político brasileiro.
Como a falta de debates presidenciais afeta a legitimidade das eleições
Os debates entre candidatos presidenciais são um dos momentos mais esperados das eleições, pois oferecem ao eleitorado a oportunidade de avaliar diretamente as propostas e personalidades dos postulantes. No entanto, a ausência de debates em 2022, como ocorreu com Lula e Flávio Bolsonaro, gerou um impacto direto na percepção de legitimidade do processo eleitoral. Estudos mostram que, em média, 70% dos eleitores consideram os debates um fator decisivo na escolha do candidato, especialmente em pleitos polarizados como o brasileiro. Sem esse espaço de diálogo, a campanha se reduz a discursos isolados, notícias fragmentadas e desinformação, o que favorece a manipulação da opinião pública.
A decisão do TSE de não obrigar os debates em 2022 foi baseada em argumentos técnicos, como a impossibilidade de garantir um ambiente neutro devido à polarização. No entanto, essa escolha criou um precedente preocupante: se a instituição responsável pela organização das eleições não consegue garantir um espaço de debate democrático, qual é o limite para a interferência política ou judicial? A falta de debates não apenas enfraquece a democracia representativa, mas também abre espaço para que candidatos menos preparados ou mais agressivos dominem o discurso, sem a necessidade de responder a perguntas incômodas. Isso explica por que, em 2022, Bolsonaro conseguiu manter uma base de apoio mesmo sem a exposição direta aos argumentos de Lula, enquanto o ex-presidente usou redes sociais e entrevistas para contornar a ausência de debates.
O papel do TSE e do STF: quando a justiça se torna um campo de batalha política
Uma das maiores controvérsias nas eleições brasileiras é a relação entre o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e o Supremo Tribunal Federal (STF), duas instituições que deveriam atuar de forma coordenada para garantir a lisura do processo, mas que frequentemente se sobrepõem ou se contradizem. Em 2022, por exemplo, o TSE decidiu que não caberia ao tribunal obrigar os debates entre Lula e Bolsonaro, enquanto o STF, em decisões anteriores, já havia estabelecido precedentes que poderiam ter sido usados para garantir esse espaço. Essa falta de alinhamento não apenas gera insegurança jurídica, mas também cria um ambiente em que as decisões passam a ser interpretadas como favoráveis a um lado ou outro do espectro político.
O problema não é novo. Desde as eleições de 2018, quando o TSE enfrentou pressões para anular votos em estados como São Paulo e Rio de Janeiro, ficou claro que as instituições não conseguem agir de forma unificada. O STF, por sua vez, muitas vezes assume um papel mais político, como ocorreu quando o ministro Alexandre de Moraes interferiu diretamente em redes sociais para censurar conteúdos considerados desinformação. Essa dualidade cria um cenário em que os eleitores ficam confusos: quem deve garantir a ética nas eleições, o TSE ou o STF? Como as decisões judiciais podem ser manipuladas durante campanhas eleitorais? A resposta não é simples, mas exige que a sociedade exija mais transparência e menos sobreposição de poderes.
Os erros históricos que repetem nas eleições: do “braço de ferro” ao “kit gay”
As eleições brasileiras dos anos 80 e 90 são um exemplo claro de como a falta de ética política pode distorcer todo um processo eleitoral. Naquele período, cabines de votação eram decoradas com símbolos de cervejas, como a famosa “Skol” ou “Brahma”, enquanto candidatos usavam recursos como o “kit gay” para desqualificar adversários. Essas práticas não eram apenas imorais, mas também ilegais, e ainda assim persistiram por décadas. O que essas eleições mostram é que, quando a ética não é uma prioridade, os candidatos recorrem a artifícios para manipular o eleitorado, desde o uso de símbolos associados a consumo até a disseminação de discursos de ódio.
No canal CNN Brasil eles cobrem esse assunto sobre ética e eleições, e você pode assistir ao vídeo bem aqui.

Hoje, embora essas práticas mais óbvias tenham sido coibidas, outros mecanismos de manipulação surgiram. Um exemplo recente foi o uso de aplicativos como o WhatsApp para espalhar notícias falsas durante a campanha de 2018, quando Bolsonaro se beneficiou de mensagens que descredenciavam Lula. Outro caso foi o vazamento de áudios editados para desmoralizar adversários, como ocorreu com a ex-presidente Dilma Rousseff. Esses episódios mostram que, embora as técnicas tenham evoluído, a falta de ética política segue sendo um problema central. A diferença é que, hoje, a manipulação é mais sofisticada e menos perceptível, o que a torna ainda mais perigosa.
Como os candidatos usam (ou abusam) das redes sociais para contornar a ética
As redes sociais transformaram a campanha eleitoral em um terreno movediço, onde a ética muitas vezes fica em segundo plano em favor da viralização de conteúdos. Candidatos como Jair Bolsonaro dominaram esse espaço ao longo dos anos, usando tweets, lives e até memes para atingir diretamente o eleitorado sem passar pelos filtros da mídia tradicional. Em 2022, por exemplo, Bolsonaro conseguiu manter uma base de apoio mesmo após a derrota, graças a uma estratégia de desinformação constante nas redes, onde notícias falsas sobre fraude eleitoral circularam sem controle. Essa abordagem não apenas contorna os debates oficiais, mas também cria um ambiente de desconfiança em relação às instituições.
Por outro lado, candidatos como Lula também aprenderam a usar as redes de forma estratégica, mas de maneira mais institucionalizada. Enquanto Bolsonaro apostava em mensagens polarizantes, Lula preferiu um tom mais moderado, focando em políticas públicas e evitando polêmicas desnecessárias. No entanto, mesmo assim, houve casos de abusos, como o compartilhamento de conteúdos editados ou a manipulação de dados para gerar likes e engajamento. O problema é que, em um ambiente onde a ética é flexível, qualquer candidato que souber explorar as emoções do eleitorado, seja com medo, raiva ou esperança, terá vantagem. A questão é: até onde pode ir essa manipulação sem que o processo eleitoral perca sua legitimidade?
O que os eleitores podem fazer para exigir mais ética nas eleições
Em um cenário em que instituições como o TSE e o STF não conseguem agir de forma clara, cabe aos eleitores assumirem um papel mais ativo na exigência de ética política. Uma das primeiras ações é acompanhar de perto as decisões judiciais que envolvem eleições, como as relacionadas a debates, propaganda eleitoral e uso de dados. Plataformas como o Justiça Eleitoral e o STF disponibilizam relatórios detalhados sobre as decisões, e ficar por dentro delas ajuda a identificar possíveis abusos. Além disso, é fundamental denunciar práticas questionáveis, como uso indevido de recursos públicos ou disseminação de fake news, por meio de canais oficiais como o Disque-Denúncia ou aplicativos de transparência.

Outra estratégia é apoiar iniciativas que promovam a educação eleitoral. Organizações como o Tribunal Superior Eleitoral já desenvolvem programas de conscientização, mas o engajamento da sociedade é essencial para que eles tenham impacto. Participar de debates locais, questionar candidatos em eventos e até mesmo compartilhar conteúdos confiáveis nas redes sociais ajudam a criar um ambiente menos propício à manipulação. Além disso, votar de forma consciente, analisando propostas, não apenas personalidades, é uma forma de pressionar os candidatos a se comportarem com mais ética. Afinal, se o eleitorado não exigir transparência, nenhum tribunal ou lei conseguirá impor limites por si só.
O que esperar das eleições de 2026: lições do passado e desafios futuros
Com as eleições de 2026 se aproximando, é inevitável que os mesmos debates sobre ética política voltem à tona, especialmente após os impasses de 2022. Uma das principais lições do último pleito é que a falta de debates presidenciais não apenas enfraqueceu a democracia, mas também permitiu que a desinformação se espalhasse sem freios. Para evitar que isso se repita, o TSE e o STF precisarão encontrar uma forma de garantir espaços de diálogo neutros, sem que isso se torne um campo de batalha político. Isso pode incluir a criação de regras mais claras para a participação de candidatos, além de mecanismos de fiscalização independente para evitar interferências.
Outro desafio será lidar com a polarização, que parece cada vez mais profunda no Brasil. Em 2022, vimos como a divisão entre eleitores pode levar à desconfiança em relação ao processo eleitoral, com acusações de fraude e ameaças à democracia. Para 2026, será essencial que os candidatos evitem discursos que incentivem a violência ou a desinformação, e que a sociedade exija mais responsabilidade por parte das instituições. Isso inclui pressionar o TSE a agir com mais firmeza contra práticas questionáveis, como o uso indevido de dados ou a manipulação de redes sociais. Se nada for feito, o risco é que as eleições brasileiras se tornem cada vez mais um espetáculo de conflitos éticos, em vez de um processo democrático legítimo.
Minha paixão é decifrar os cenários políticos complexos do Brasil, desde as eleições municipais até o pleito presidencial. Passo horas analisando dados e discursos para entender o que realmente importa para o cidadão comum. Acredito que uma democracia forte depende de informação clara e acessível para todos.
